Do Zé Ningúem ao Super Star - Jornal Nota 10 - Raquel Momm
Publicado no Jornal Nota 10 em
21/10/2010 -
Enquanto seres humanos, temos uma capacidade incrível de oscilarmos de um a outro personagem, extremos, paradoxais e opostos.
O Zé Ninguém e o Super Star não são personagens distintos, opostos, e diferentes. Eles coexistem em nós mesmos e aparecem se fortalecem e se manifestam nos momentos que nos é mais oportuno.
Talvez, o mais correto seja dizermos “ do super star” ao “Zé Ninguém”, pois costuma ser nessa ordem que deixamos nossas emoções fluir, geralmente, apesar de não necessariamente.
Quando nascemos, somos incapazes de perceber que todo o mundo a nossa volta existia ( e continuará existindo) independente de nossa própria existência. Nossos pais, irmãos, nossa própria casa, e toda a sociedade na qual passamos gradativamente a nos inserir já existiam antes de nós. Os primeiros anos de nossa infância porém apresentam uma característica marcante, única e incomparável em qualquer outra etapa da vida: nos sentimos como o centro do universo.
Em especial, gostaria de pensar nos dias e meses após o nosso nascimento. Neste momento único, para nós, não importam muito as circunstâncias que envolveram a nossa concepção e nascimento. Status social, riqueza e todos os apelos de consumo são incapazes de nos afetar. Não buscamos a felicidade e nem nos preocupamos por quantos anos iremos viver ou que tipo de jornada a vida nos oferecerá.
O que importa apenas é a satisfação imediata e plena das nossas necessidades mais básicas como estar alimentados, aquecidos e secos. Além disso, aprendemos muito cedo a importância de assegurar que estejam nos dando atenção. De preferência, muita atenção.
O bebê, recebido no calor de uma família, é por si só um super star. É o centro das atenções, suas necessidades são atendidas antes das necessidades de quaisquer outros, e todos procuram compreender o que ele precisa ou quer, independente de sua incapacidade de comunicar-se através da linguagem. Definitivamente, ele é o centro do universo, dentro de sua própria perspectiva equivocada do mundo real.
A medida que o bebê cresce, ele torna-se um bebê muito melhor, em diversos aspectos: ganha peso rapidamente; aprende formas de se comunicar muito antes de aprender a falar, torna-se cada vez mais forte e mais imune a doenças que acabariam com um recém nascido, começa a observar e fazer hipóteses sobre o mundo que está a sua volta.
Mas o mundo que ele está vivendo é cruel. Quanto mais cresce o bebê, e melhor ele fica, no sentido orgânico, cognitivo, e do seu desenvolvimento, mais ele se afasta daquele momento especial que só vive uma vez na vida: o momento que ele se sente um ser humano completo.
Durante a infância, muitos de nós choramos ou batemos os pés tentando manter o nosso trono, que dia a dia se afastava de nós. E quanto mais brigávamos por continuar a ser o super star mais as pessoas nos demonstravam que tínhamos crescido, e tínhamos que aprender as regras do mundo onde vivíamos. E ninguém nasceu preparado para descobrir o inevitável: tínhamos tudo somente porque éramos incapazes de tudo. A medida que aprendíamos qualquer coisa, as pessoas comemoravam: afinal era uma coisa a menos que elas precisariam fazer por nós.
A idéia não é que gostaríamos de chegar à vida adulta sendo tratados como bebês. Queremos e lutamos para tomar as rédeas de nossas próprias vidas, mas o preço que pagamos por cada uma de nossas conquistas costuma ser um pouco mais alto do que estávamos dispostos.
Se formos muito sinceros, vamos descobrir que muitos traços desse super star continuam presentes durante toda a nossa vida adulta, e afloram sempre que nos é conveniente. Ou seja, no fundo (ou no raso mesmo), quantas vezes nos deparamos com alguém desenvolvendo uma atividade, e asseguramos a nós mesmos que nós poderíamos fazer muito melhor. Nossa visão equivocada a respeito do mundo que nos cerca está sempre pronta a nos oferecer elementos que indicam que nós somos melhores. Com sinceridade, concluímos mesmo que somos muito bons.
Usualmente nosso raciocínio usa um caminho mais ou menos assim: fulano(a) só consegue fazer isso porque de alguma forma eu colaborei. Se não fosse eu neste lugar, muita coisa já teria ido de água abaixo. Ou ainda: eu só não desempenho a mesma atividade e de forma melhor, porque não deram a oportunidade para mim. Tem a clássica: se eu tivesse o orçamento que ele ou ela tem em mãos para fazer isso, eu faria isso e muito melhor.
Em suma, quando uma pessoa critica ou faz fofoca, é como se ela voltasse àquela fase maravilhosa da vida que ela livre de defeitos, cobranças ou inquietações. Incrível é pensar como a maioria das pessoas que fazem é vistas pelas pessoas que as cercam, e não fazem, como menos capacitadas que elas próprias.
Mas nossos dias não são habitados apenas por sentimentos de super star. O Zé Ninguém tem cadeira cativa nas emoções das pessoas.
O Zé Ninguém é quase um coitado. Ele é menos capacitado, menos talentoso, menos reconhecido, menos estudado, menos eloqüente, e menos quase tudo que você puder imaginar de bons adjetivos que você pudesse atribuir a alguém.
O mais interessante do Zé Ninguém, é o momento que ele emerge no imaginário das pessoas.
Aquele sujeito, super star, transforma-se quase que instantaneamente em Zé Ninguém tão logo lhe seja atribuída uma tarefa ou uma missão de real importância.
A lista de nomes, cursos e qualificações de outros, parece martelar insistentemente em sua cabeça. São tantas pessoas que ele conhece que são muitíssimo mais estudadas que ele. Ele lembrará de pessoas que são experientes, outras que são habilitadas, os que são viajados, os bem relacionados, os abastados, e um leque interminável de pessoas que poderia desempenhar aquela missão melhor que ele.
Refletindo bem, o Zé Ninguém – ex super star conclui que a tarefa que lhe foi atribuída é Missão Impossível para alguém como ele, o Zé Ninguém.
Retratamos as figuras do super star e do zé ninguém de forma caricata, para facilitar para você a compreensão de como costumamos agir diante de situações diversas na vida.
Retornar à sua terra natal por exemplo, pode ser um exercício surpreendente. Entre dezenas e centenas de pessoas que você conheceu, cada uma delas tinha uma expectativa diferente das pessoas que a cercavam. Você já percebeu como pessoas que pareciam estar desenvolvendo um talento incrível, que tinham um futuro promissor pela frente, acabaram tendo uma vida abaixo até dos limites da mediocridade? Enquanto isso, outras pelas quais você não esperava grandes realizações, conseguiram superar barreiras, vencer dificuldades, ultrapassar as limitações de sua própria família ou comunidade e traçaram trajetórias surpreendentes para alguém que, como você conhece, teve uma infância tão limitada de recursos culturais ou financeiros.
Na própria história da humanidade, e na maioria das narrativas bíblicas, a liderança nos momentos de crise e as grandes mudanças não ocorreram com as pessoas, nos lugares, e da forma que a sociedade imaginava.
Creio que nunca as pessoas tiveram acesso a tantas palavras de ânimo. Livros e materiais de auto ajuda tornaram-se um mercado promissor. A facilidade de acesso a diferentes conhecimentos popularizou-se sobremaneira com a internet, e parece que mais que nunca as pessoas tornam-se incapazes de fazer a gestão de suas próprias vidas. Passam a juventude rebelando-se contra o que aprenderam de bom, e o resto de suas vidas tentando juntar os cacos do que sobrou de anos inconseqüentes.
A capacidade de realizar o que precisa ser feito se evidencia na vida de pessoas que talvez você não contrataria se analisasse apenas o seu currículo, mas parece estar relacionada a uma atitude de equilíbrio, que nos permite nos desviar desses dois grandes inimigos que vivem dentro de nós: o Zé Ninguém e o Super Star.
Raquel Adriano Momm Maciel de Camargo é psicóloga e
Diretora da Escola Centro Educacional Evangélico em Curitiba
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